Com dores na coluna, Beth Carvalho faz show deitada no Rio de Janeiro

Foi comovente o show feito por Beth Carvalho na cidade do Rio de Janeiro (RJ) na noite de ontem, 1º de setembro de 2018, ao lado do grupo Fundo de Quintal. Foi também histórico e heroico pelo ineditismo mundial de uma cantora se apresentar deitada por conta de problemas de saúde.

Com mobilidade cada vez mais reduzida pelos efeitos de doença que há cerca de dez anos corrói a coluna da artista, Beth cantou deitada sem tirar os pés do chão que embasa e sustenta o samba do Fundo de Quintal, apresentado pela cantora em 1978 no álbum, De pé no chão (RCA-Victor, 1978).

O mote do show Beth Carvalho encontra Fundo de Quintal – 40 anos de pé no chão foram as quatro décadas desse disco que mostrou nova forma de tocar samba com instrumentos então desconhecidos como o repique de mão e o tantã, criados por sambistas que se reuniam na quadra do bloco Cacique de Ramos, no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro (RJ), e que viriam a formar o grupo Fundo de Quintal.

Como o álbum contabiliza 12 músicas, Beth inseriu ao longo do roteiro (de 25 composições) outros sambas que nasceram da batucada dos tantãs e repiques dessa turma de bambas. Somente um samba – Marcando bobeira (João Quadrado, Beto Sem Braço e Dão, 1978), alocado na abertura do show – foi cantado com Beth sentada.

A partir do segundo número, o partido alto Ô Isaura (Rubens da Mangueira, 1978), a cantora deitou no chaise longue, sofá-cama alocado ao centro do palco da casa carioca KM de Vantagens Hall, para desfiar pérolas do pagode lapidadas na quadra do bloco Cacique de Ramos, celeiro dos bambas que se fizeram ouvir nas próprias vozes a partir da década de 1980.

E foi aí, com Beth deitada, com figurino que reproduziu o modelo do vestido usado na foto da capa do álbum de 1978, que o milagre se fez por obra da garra da cantora – saudada pelo público com adjetivos como “guerreira” – e dos deuses do samba.

Em tese, a emissão da voz fica bastante prejudicada na posição em que Beth estava em cena, desconfortável para a respiração e o controle do diafragma. Mesmo deitada, com a voz já desgastada pelo tempo, a cantora achou o tom e – mesmo lendo as letras no teleprompter – fez com que ficasse bom outra vez um cantar referencial no mundo do samba.

A vontade de desafiar limites para estar em cena, hasteando mais uma vez a alta bandeira do samba carioca, amplificou o sentido dos versos de O show tem que continuar (Sombrinha, Arlindo Cruz e Luiz Carlos da Vila, 1988), cantados a plenos pulmões pela plateia.

E o que se viu e ouviu na noite de ontem, no palco da casa KM de Vantagens Hall, foi show memorável, em que Beth se superou e cantou sambas que há muito não cantava, mostrando para quem quiser ouvir o quanto a produção de compositores como Sombrinha, Sombra, Luiz Carlos da Vila (1949 – 2008) e Arlindo Cruz – para citar somente quatro bambas da turma do Cacique – resiste bem ao tempo, já envolta na mesma nobreza que caracteriza o samba da velha guarda de compositores anteriores a esses bambas.

Quem há de negar a beleza atemporal da melodia e da poesia que pulsa com lirismo em Além da razão (Sombrinha, Sombra e Luiz Carlos da Vila, 1988) e A oitava cor (Sombrinha, Sombra e Luiz Carlos da Vila, 1988)? Os dois sambas foram incluídos no roteiro – o primeiro na voz de Beth e o segundo puxado pelo Fundo de Quintal – com legitimidade porque o samba frutificado nos quintais cariocas ao longo da década de 1980 veio da semente colhida por Beth nas visitas ao Cacique de Ramos, a partir de 1977, e plantada pela cantora no álbum De pé no chão.

Enquanto Beth apresentou iguarias desse disco antológico, como o partido alto Goiabada cascão (Wilson Moreira e Nei Lopes, 1978), saltou aos ouvidos a certeza de que a melhor cozinha do samba ainda é a do Fundo de Quintal.

As presenças de Ubirany (no repique de mão inventado pelo músico, como contou Beth numa das falas em que rememorou a descoberta dessa turma), Bira Presidente e Sereno contribuíram para enobrecer a apresentação. Bira e Ubirany tiveram momentos de protagonismo quando foram para a beira do palco evoluir no compasso de Miudinho meu bem, Miudinho (Arlindo Cruz e Franco, 1989).

Já Junior Itaguay – admitido como integrante do Fundo de Quintal no primeiro semestre de 2017 – soltou a voz viçosa e ajudou Beth na cantoria de alguns sambas, sobretudo Ainda é tempo pra ser feliz (Arlindo Cruz, Sombra, Sombrinha, 1998), introduzido fora da fronteira do samba pelo sopro virtuoso de Dirceu Leite.

E por falar em virtuoses, o toque da gaita do músico convidado Rildo Hora, produtor do álbum De pé no chão e de vários outros grandes discos de Beth, sublinhou a delicadeza melódica do samba-canção Que sejam bem-vindos (Cartola, 1978).

À medida em que o show evoluiu bem, com um samba lindo atrás do outro, ficou evidente a grandeza do repertório gravado por Beth Carvalho a partir dos anos 1970. Somente no álbum De pé no chão a cantora apresentou Agoniza, mas não morre (Nelson Sargento, 1978), Lenço (Monarco e Chico Santana, 1978), Linda borboleta (Paulo da Portela com letra póstuma de Monarco, 1978), Meu caminho (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, 1978) e Passarinho (Chatim, 1978), sambas mais lentos, líricos, mais próximos do estilo da Velha Guarda do que do samba geralmente coloquial do Fundo de Quintal.

Contudo, tal como no disco de 1978, esses sambas mais tradicionais se harmonizaram bem com os pagodes e partidos altos dos quintais de Ramos no roteiro coeso do show Beth Carvalho encontra Fundo de Quintal – 40 anos de pé no chão.

Como o show foi em essência uma declaração de resistência e de amor ao samba, a inclusão de A batucada dos nossos tantãs (Sereno, Adilson Gavião e Robson Guimarães, 1993) fez todo o sentido. Beth Carvalho não perde o prazer de cantar. E, no cantar valente da intérprete, o samba se refez e se fez reluzir nesse reencontro com o Fundo de Quintal porque, apesar de toda dor, o show tem que continuar.

Fonte: Cidade Verde/Via Mauro Ferreira/ G1

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