56% das encarceradas em Teresina são por tráfico de drogas

Por que as mulheres traficam drogas? O Cidadeverde.comconversou com duas reeducandas da Penitenciária Feminina de Teresina e com o coordenador da Delegacia Especializada de Prevenção e Repressão a Entorpecentes (Depre), delegado Cadena Júnior, para responder esse questionamento. Seria por amor, necessidade financeira ou vaidade?

Atualmente, 56% das mulheres encarceradas na Penitenciária Feminina de Teresina respondem pelo crime de tráfico de drogas. A informação é da gerência da unidade, localizada na zona Sul da capital. O local abriga 116 reeducandas.

Sentenciada a 22 anos de prisão, Tarcyana Kelly cumpre a pena na Penitencária Feminina. Ela assume que passou a traficar drogas por amor. Ela conheceu um jovem, se apaixonou e mesmo sabendo que ele comercializava drogas, decidiu manter a relação. Após ficar desempregada, ela decidiu ajudá-lo. Hoje, ele está morto; ela, que é mãe de quatro filhos, está há sete meses recolhida no sistema prisional.

“É um dinheiro fácil com resultado ruim. Essa minha relação com a droga começou com um namorado, e agora estou aqui. Eu apaixonada e desempregada, deu nisso”, conta.

Esse é um retrato comum e representa a maioria dos casos de mulheres presas em Teresina por tráfico de drogas, conta o delegado Cadena Júnior. “Essas mulheres estavam envolvidas afetivamente ou por laços de parentesco com os traficantes, do sexo masculino, presos pela Depre. Dificilmente, elas abrem a porta (do tráfico) sozinha, quase sempre tem essa influência do namorado, esposo, filho”, diz o delegado.

Com base nos depoimentos, investigações e operações da Depre,  o coordenador descreve dois dos principais perfis das mulheres presas por tráfico na capital piauiense.

O primeiro deles é a relação de parentesco ou afetiva com o líder da quadrilha: a namorada, mãe, filha ou esposa dá continuidade ao tráfico para poder arcar com as custas processuais do namorado, filho, irmão ou esposo, por exemplo, que foi preso por tráfico. “O cara já está preso e ela vai continuar fazendo o errado para retirá-lo da cadeia”, diz Cadena. Outro perfil comum é a dependente química que revende a droga para manter o vício. “Ela pega 10 pedras de crack, fica com duas e repassa 8”.

Cadena diz ainda que muitas mulheres, pelo menos inicialmente, não ficam na “linha de comando”, mas sim na parte de apoio dos namorados. Elas fazem atividades como guardar a droga ou levar recados aos envolvidos no esquema, por exemplo.  “O amor e a paixão no mundo do crime também existe. O destino final de todos é a prisão”, diz.

“A droga está ali, fácil, em seu alcance, ela acha que a polícia não vai mais atrás dela já que o marido, que era o líder, o ‘linha de frente’, foi preso. Então, ela vai e passa a traficar porque é um dinheiro fácil para manter o ‘padrão de vida’ e pagar o advogado do preso. Muitas relatam que esses foram o motivo para entrar no mundo do crime”.

A relação amorosa também levou Agenir Rodrigues, sentenciada a 8 anos, à prisão. Recolhida desde 2017, ela conta que começou a traficar porque percebeu que o ajudante da sua ex-companheira, que faleceu de morte natural, não estava sendo “honesto” com o repasse financeiro. Então, decidiu traficar para “manter o padrão de vida”.

“Eu estava junto com ela, ela traficando, a gente precisando do dinheiro. Hoje em dia eu mesmo que não quero saber do tráfico. Nem de mulher. É um dinheiro que lhe dá um vida ali, mas depois é cadeia. Ou é esse o caminho ou é a morte”.

egócio de família

Cadena Junior cita o exemplo de uma família em que as duas mulheres da casa, a mãe a filha, entraram para o mundo do tráfico após o filho, que comandava a “boca de fumo” ser preso. O delegado destaca que em muitos casos a droga passou a ser um “negócio de família”.

“Tem uma família no Renascença II, na zona Sudeste, que se envolveu toda com as drogas. O filho começou a traficar, depois ele foi preso e a irmã ficou no lugar, passou a traficar e foi presa. Chegou a vez da mãe, que também foi presa. Depois teve uma situação que todos foram presos juntos. Isso tudo pela Depre nos anos de 2016 e 2017”.

Prisões 

Cadena chegou à Depre em 2015 e ficou como delegado adjunto até 2016, quando passou a assumir a coordenação da Polinter, retornando à Depre como coordenador em abril de 2018. Com base nos números de prisão, Cadena fala que houve um crescimento exponencial no número de mulheres.

Somente em janeiro de 2019, nove mulheres foram presas pela Depre por tráfico; pouco mais da metade do número de homens, que foi 16. Outras cinco mulheres foram presas por posse e uso de drogas, contra 26 homens. De janeiro a dezembro de 2018, a Depre prendeu 65 mulheres e 307 homens.

Em 2015 foram 118 mulheres presas pela Depre e, no ano seguinte, em 2016, a quantidade subiu para 136.

A Vara de Execuções Penais do Piauí informou que o sistema carcerário piauiense possui, ao todo, 239 mulheres presas, por diversos crimes, incluindo o de tráfico de drogas.

 

Carlienne Carpaso/Cidade Verde

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