Transmissão de Zika por pernilongo comum requer ‘mudança radical’ em medidas de controle

Cientistas da Fiocruz Pernambuco encontraram pela primeira vez esse tipo de mosquito carregando o Zika na natureza – agora, analisarão quão eficaz ele é na sua transmissão entre seres humanos.

Bloqueio da infecção em alguns mosquitos culex pode gerar novo estudo (Foto: Wikimedia Commons)Pesquisa encontrou pela 1ª vez mosquitos Culex carregando vírus da Zika (Foto: Wikimedia Commons)

A bióloga Constância Ayres, da Fiocruz Pernambuco, fez uma descoberta inédita que tem o potencial de proporcionar um salto no conhecimento dos cientistas sobre o vírus Zika, e mudar radicalmente a estratégia brasileira de prevenção dele.

Na quinta-feira, a Fiocruz anunciou oficialmente que o mosquito Culex quinquefasciatus, conhecido como muriçoca ou pernilongo doméstico, também pode transmitir o vírus que causa microcefalia e malformações em bebês.

Até então, cientistas acreditavam que o mosquito Aedes aegypti era o principal vetor do vírus no Brasil. Agora, de acordo com Ayres, os cientistas precisam determinar qual das duas espécies é a mais importante na epidemia de Zika no Brasil.

Durante o anúncio, a Fiocruz afirmou que, até que se compreenda a importância do pernilongo na epidemia, a política de controle da Zika continuará focada no Aedes aegypti.

Mas dependendo dos resultados, seria necessária uma “mudança radical” na atual estratégia atual de controle da epidemia, afirma a pesquisadora.

“Não existem estratégias de controle do Culex no Brasil. Isso vai ter de mudar radicalmente”, diz.

Em entrevista à BBC Brasil, Ayres esclareceu a dúvidas sobre o andamento da pesquisa e as implicações de sua descoberta.

1. Como determinou-se que o pernilongo pode transmitir o vírus Zika?
A pesquisa analisou 500 pernilongos capturados na Região Metropolitana do Recife. Eles foram obtidos em locais onde havia casos notificados de Zika, segundo Ayres, para aumentar a possibilidade de se encontrar o vírus no ambiente.

Os pernilongos foram divididos em 80 grupos e o vírus foi encontrado em três deles. Em dois destes grupos, de acordo com a Fiocruz, os mosquitos não estavam alimentados. Isso demonstra “que o vírus estava disseminado no organismo do inseto e não (foi contraído) em uma alimentação recente num hospedeiro infectado”.

No laboratório, a equipe de Ayres alimentou os mosquitos com uma mistura de sangue e vírus, para entender como o Zika se replica dentro dos insetos.

Em seguida, os pesquisadores investigaram o intestino e a glândula salivar dos mosquitos. Se o pernilongo não fosse vetor, seu intestino bloquearia o desenvolvimento do vírus dentro do organismo.

Mas, se o vírus conseguisse se replicar, ele chegaria até a glândula salivar do Culex e poderia ser transmitido para humanos durante a picada.

Dessa forma, a equipe de Ayres confirmou que o Culex pode carregar o vírus em seu organismo. Amostras da saliva dos pernilongos infectados foram analisadas, e continham quantidades de vírus semelhantes às encontradas na saliva do Aedes aegypti.

Segundo Ayres, outra descoberta da Fiocruz Pernambuco dá força à hipótese: um grupo de pesquisa percebeu que a distribuição geográfica da filariose (elefantíase) e do Zika vírus em Recife é muito semelhante.

Em Recife, o Culex quinquefasciatus é o único mosquito que transmite o parasita que causa a elefantíase. “Somos a única área do Brasil endêmica para essa doença”, explica a bióloga.

“Cerca de 85% das mães que tiveram bebês com microcefalia por causa do Zika estão em áreas muito precárias, sem saneamento básico, onde ocorre mais a filariose. Isso pode explicar a participação do Culex na transmissão da Zika e dar suporte à nossa hipótese.”

“O Aedes aegypti, por outro lado, está mais distribuído na cidade. Vemos que a dengue é uma doença bem democrática, não está só em áreas precárias”, afirma.

2. O pernilongo também pode ser vetor de tranmissão de dengue e chikungunya?
De acordo com a Fiocruz, a pesquisa deu prioridade ao vírus Zika por causa da epidemia da doença no Brasil e sua ligação com a microcefalia.

Apesar da epidemia de chikungunya, que também atinge principalmente Estados do Nordeste, ainda não se sabe se esta doença também pode ser transmitida pelo Culex.

Ayres afirma que o vírus da dengue já foi encontrado em pernilongos coletados em campo, mas ainda não se confirmou se ele pode ser seu vetor.

Bióloga Constância Ayres, da Fiocruz Pernambuco, investigará a eficiência do pernilongo na transmissão da Zika (Foto: Gabriela Belém/ BBC Brasil)
Fonte: G1

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